O cavalo do sr. doutor.
Vou-vos contar uma história.
Rezam as más linguas, algumas com dor de cotovelo (sim, linguas com dor de cotovelo também existem), que tempos houve em que, para se ser doutor era apenas preciso ter dinheiro. Não muito, apenas uns contos de réis.
O senhor proprietário, vamos supor, daqueles com vastas terras de cultivo nas Beiras tinha um filho. Decidido a fazer do filho doutor rumou a Coimbra na companhia do se primogénito, montado cada um no seu mamífero quadrúpede perissodáctilo, pronto desculpem... cavalo.
Chegados a Coimbra dirigiram-se à reitoria da Universidade.
- Vim cá para fazer do meu filho um doutor. Disse com a arrogância de quem nunca conheceu dificuldades em mandar nos seus súbditos.
-Ah, pois, claro. Mas é que sabe que isto não é assim...
-Não é assim? Como não é assim?
-Pois, é que são precisos muitos anos e estudar, frequentar a Universidade.... e uns têm jeito e outros não, uns são capazes e outros.... bem, o senhor proprietário sabe... não são. Não têm o que é necessário.
O senhor proprietário pousa a bolsa cheia de moedas na mesa e pergunta:
-Pois e isto é o necessário ou ainda sobra troco?
Como contra factos não há argumentos, o rapazote saiu de lá com o grau de doutor, claro. Contentes e felizes da vida lá retornaram a casa. Pelo caminho, diz o filho para o pai.
-Ó senhor meu pai? O senhor meu pai que sempre foi um homem digno, esperto e rico. Que mandou em toda a gente que conhece e foi habituado a ter o poder nas mãos, não quer também ser um doutor?
Depois de uma breve discussão o pai lá reconheceu e voltaram para trás. Repetem o processo e as moedas voltam a falar mais alto.
Voltam a casa. Mais uma vez pelo caminho e vendo que as coisas até eram fáceis diz agora doutor filho.
-Senhor meu pai?
-Diz?
-Pois. O senhor meu pai sabe, esse cavalo já fez tantas viagens pelo país fora, transportando-o em tantos momentos importantes da sua vida e também da minha, foi até nele que aprendi a montar...
-Sim, que queres dizer, meu filho varão e doutor?
-Pois, não acha, senhor meu pai, que podíamos voltar atrás e fazer dele também um doutor?
-(risos)Então um cavalo doutor!!? Bem , nem era assim tão má ideia e afinal de contas este cavalo às vezes é mais esperto que a tua mãe e não fala, o que é uma vantagem clara em relação a ela. Merece sim senhor. Voltemos lá então.
Entraram em Coimbra (de novo) e dirigiram-se à reitoria.
-Vínhamos pedir ao Sr. Reitor que fizesse do meu cavalo um doutor. É um animal manso, esperto e é um verdadeiro companheiro...
-Impossível diz o Reitor pousando os óculos e dando um jeito aos ombros.
-Impossível? Não pode ser. Diga-me quanto custa que eu tratarei de providenciar o dinheiro. Diga-me quanto é.
Diz o reitor, com autoridade: - Pois, mas mesmo assim é impossível. (E prosseguiu) É que nós aqui nesta universidade, de burros fazemos doutores, mas aos cavalos não podemos fazer nada.
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Pois é. A formação académica é coisa de muito de valor, tanto para um país como para a própria pessoa. A escola é uma parte integrante de uma socialização que se quer abrangente e a Universidade ajuda-nos a adquirir os conhecimentos técnicos e específicos numa determinada área. Mas isso não faz de nós, os estudantes, ou doutores, melhor do que os outros, que não estudaram. Conhecimentos técnicos podem ser das mais diversas áreas e os sapateiros, por exemplo, que não têm Universidade, têm, no entanto, os conhecimentos técnicos para coser sapatos. Por isso quando temos os sapatos rôtos vamos ao sapateiro, certo? Os doutores também lá vão, certo? Pronto então.
Não podemos esquecer que todos precisamos uns dos outros e ninguém é mais do que o outro. Pode ser mais estúpido mas isso é outra questão.
O grau de doutor não fornece carácter, nem personalidade e cada vez mais deixa de ser sinónimo de inteligência.
E mais. O doutor, fruto da sua vocação académica, e do seu conhecimento que se quer abrangente deve estar preparado para fazer o que for preciso, também fora da sua área de qualificação e formação profissional.
Por isso se for preciso cavar terra, deve calçar as botas e trabalhar. A formação não deve ser vista como redutora das tarefas, mas como o instrumento que permite abrir o leque das possibilidades.
Por isso é que digo que há por aí muito cavalo doutor, a pensar que um canudo preenche lacunas de falta de educação, carácter e personalidade. E é preciso trabalhar, e tentar apenas ser o melhor naquilo que se faz, seja o que for.
P.S. Não tive razões de queixa. Não tenho dor de cotovelo. Mas custa-me ver um país cheio de possibilidades, e que apesar de tanta formação académica continuamos sem empreendorismo, sem competitividade e a viver claramente acima daquilo que podemos e seria aconselhável. E mais. Fazemos mesmo questão disso. De viver sem empreender, sem poupar, sem investir e reinvestir. De hipotecar o futuro para ter um carro melhor, uma casa melhor e uma viagem de férias melhor.
Ah, e se não concordarem com isto pelo menos não esqueçam a história que vos tentei contar o melhor que soube.

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