sábado, maio 21, 2005

Meia dúzia de ideias incoerentes

1) Um curso superior serve para disfarçar estupidez.

Já há muito tempo que venho alertando para o facto de que um curso superior neste nosso Portugal é um anátema mais do que um catalizador. É vergonhoso ver tanto trabalho que fica por fazer neste país porque os nossos licenciados querem esperar pelo emprego (não trabalho, atenção!) que corresponde ao que estudaram na faculdade. Têm que respeitar a sua vocação... ou serão maus profissionais, defendem. Desculpas de mau pagador, digo eu! A Preguiça também é um pecado mortal.

2) O carácter vê-se no trabalho diário.

Fui educado desde novo a ajudar no que podia no negócio da família. Vergar a mola para ganhar o pão nosso de cada dia não é vergonha. Roubar é que é. Não me sinto menos digno ou pior gestor porque ocasionalmente carrego móveis para as casas dos clientes. A necessidade assim o ordena. A necessidade é a mãe de toda a acção. Não devia ser mas é.

3) À procura do sonho... encontra-se a sesta.

Há uns tempos atrás tinha uma vendedora que auferia de um rendimento líquido de 200 contos mensais. Vendia 2000 contos por mês. A loja tinha que vender 4000 + IVA para cobrir só as despesas. A moça veio ter comigo e demitiu-se, não tanto pelo baixo salário mas mais porque não a satisfazia um emprego que nada tinha a ver com a sua licenciatura de Relações Internacionais.
Substituí-a por outra da mesma idade sem curso nenhum mas com vontade de trabalhar. Dei-lhe 80 contos por mês, o que não era mal para quem vinha recebendo o salário mínimo no anterior emprego. A moça nova vendia-me 4500 contos por mês +IVA. (Lá se vai o mito de quanto mais alta a remuneração mais motivados estão os funcionários, melhores os resultados da empresa.)
A licenciada passados quatro anos continua desempregada; vale que o marido é um mouro de trabalho e um engenheiro muito competente que ganha para os dois. A moça agora é dona de casa. (Relembro que ela queria um emprego que tivessse a ver com o curso de Relações Internacionais.)

4) Só damos valor ao que temos quando o perdemos.

Por volta da mesma altura, certo dia estava eu a chegar à loja vindo das traseiras. Bato ao portão para me deixarem entrar. Vem a moça do escritório desde a secretária dela a uns bons 7 metros de distância abrir-me o portão. Entro e deparo-me com o pai dela (Não sei até hoje o que estava lá a fazer) a insinuar que não fazia parte das tarefas da filha abrir o portão; afinal de contas, ela era a "escriturária". Ora bem, a moça tinha o 9º ano completo e para além de agrafar guias de remessa a facturas, pôr selos nos envelopes e pagar contas da EDP nos correios, não sabia fazer muito mais. Hoje em dia trabalha na peixaria do Feira Nova. Mas não deve abrir muitos portões, vá lá.

5) Desafiar e fugir à luta é cobardia.

Anda para aí muita gente enganada em relação ao seu real valor. É típico em Portugal dizer mal dos outros. Os funcionários estão sempre a dizer mal dos patrões, como se eles fizessem melhor se mandassem, mas quando toca a chegar-se à frente com seu dinheiro, alto!, que isto anda difícil; é melhor esperar...

6) O meu adversário motiva-me a dar o meu melhor.

O empreendorismo não é algo que se ensine em aulas. Em certa medida é genético. Os filhos de empresários têm mais facilidade em tornar-se empresários, porque estão habituados desde novos a lidar com o risco de um negócio. Estão também sensibilizados para o facto de terem constantemente de criar oportunidades, não de esperar por elas. Ser empresário em Portugal é reagir. E às vezes fomentar a mudança mesmo que não a controlemos, só porque antecipamos que outros estarão ainda mais mal preparados. Basicamente, é gostar de estar em constante desafio. O conforto e a acomodação são palavras banidas. Parar é morrer.

1 Comments:

At 8:35 da tarde, Blogger DrSeven said...

Eu sabia que um dia ía concordar contigo nalguma coisa... Não esperava era que fosse algo com esta profundidade, loll. São meia dúzia de ideias e valem por muitas mais. Mas posso acrescentar que nisto do estatuto de doutor a culpa também é dos pais, aliás como bem retrataste.

Mais uma coisa. Se precisares de alguém para abrir portas na loja, eu vou... e até pode ser que consiga fazer mais alguma coisa fora das minhas tarefas originais.

Lindo. Muito bem Frei Tiago.

 

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