A democracia e a ingovernabilidade
Estimados co-leitores deste blog que é pertença de todos nós, é com uma profunda angústia que vejo a pré-pré-campanha eleitoral que decorre nestes dias conturbados da nossa ainda jovem democracia. As premissas que levaram a esta situação são, a meu ver, forçadas. No mínimo... Qual a razão da dissolução da Assembleia? Nenhuma! É um perfeito disparate. A todos os níveis.
Deixem-me dizer que não sou partidário de Santana Lopes, nem fui a favor da sua subida a primeiro ministro. Outra coisa é dizer que que acho que a Assembleia da República deveria ter sido dissolvida naquela altura. Não deveria; o que devia ter acontecido é o Presidente ter juntado à mesa, no âmbito de um verdadeiro pacto de regime, os líderes dos partidos com vocação governativa, e ter nomeado um governo de iniciativa presidencial que tivesse uma linha de governação reformista como se impõe a Portugal, numa altura em que até Chipre, Eslovénia e Malta nos passaram à frente. Mas isso não faz mal. A malta cá aguenta a humilhação, como sempre...
Mas dizia eu: um governo de iniciativa presidencial, isso sim era o que se impunha. Não o destruir de uma maioria parlamentar sem justificação para depois, num debate televisivo, defender a necessidade imperiosa de maiorias para assegurar o ímpeto reformista da nação. Perdoem-me a frontalidade, mas a isto eu chamo hipocrisia.
O precedente aberto por Jorge Sampaio traz-nos de volta aos tempos da 1ª República, em que por divergências ideológicas inconciliáveis nos partidos com assento parlamentar, não existia governo que se mantivesse durante mais de 4 meses consecutivos. Também nesta altura, o país debatia-se com uma grave crise nas contas públicas que não havia maneira de resolver.
Dada a enorme alternância governativa, sempre que chegava um novo governo, tentava mostrar obra na tentativa de ser reeleito. Às vezes funcionava, mas era sempre à custa do erário público. É que o eleitoralismo não é só de agora, sabem?
O resultado da situação política foi o aparecimento do Estado Novo, com o prof. Oliveira Salazar a liderar o país, num estilo governativo mais autocrático e disciplinador, não só em termos económicos, mas também ao nível das liberdades civis.
Hoje em dia, temos as finanças públicas em estado de sítio, e o Presidente em vez de abrir caminho à resolução do probema, abre ainda mais a ferida. Se não gostava de Santana Lopes não o convidava para depois o demitir. Metia lá alguém consensual e que beneficiasse de uma maioria parlamentar.
Não estou a ver nos próximos tempos algum partido a ganhar as legislativas com mais de 46% dos votos. E isso, a par das contas públicas, traz-nos de volta à 1ª República. Agradeço todos os dias a todos os santos de que me lembro, por estarmos na União Europeia. Porque se assim não fosse, não tardava e vinha por aí um homem providencial a salvar a pátria. E eu gosto muito da minha liberdade de expressão. Nem que seja só para dizer merda!
Mas assim, estamos seguros. Não vem lá a figura paternal que nos irá salvar de nós próprios. Iremos tranquilamente viver num turpor imbecilizante, mas feliz, divergindo da Europa, fingindo que não nos apercebemos que estamos a empobrecer a cada dia, e que inevitavelmente, um dia seremos confrontados com a realidade que, ao contrário dos nossos pais, vamos deixar menos ao nossos filhos do que recebemos.

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