Crónica de passagem de ano
Eram onze da matina e tinha acabado de ligar a televisão. Estava a dar um bloco noticioso especial e o tema captou-me instantaneamente a atenção. Ao chegar a minha mãe, contei-lhe o que tinha visto. 4000 mortos era muita coisa. Nem o atentado às torres gémeas tinha produzido tantos óbitos. Era ago que impressionava... mesmo naquela altura.
Passam-se os dias. Na televisão é sempre o mesmo assunto. Não me recordo de ver um tema tão explorado pelos noticiários desde o desaparecimento da Joana. No entanto, neste último caso, tal parece-me apropriado.
3,2,1,ZERO! Subi para uma cadeira, bebi um pouco de espumante tinto bruto que tão bem tinha acompanhado o leitão e desejei a todos os presentes um feliz 2005. Como não gosto de passas tratei de acender um cigarro. Espero que o efeito seja o mesmo. Não as contei mas penso ter dado 12 passas.
A discoteca escolhida para o resto da noite foi o Batô em Leça da Palmeira. Por 10€ tem-se acesso a duas cervejas e a um ambiente musical diferente. Pixies, David Bowie, Muse, Nirvana, Iggy Pop são nomes que tradicionalmente passam neste local. Como era passagem de ano o preço fixado era 20€. Dava direito a duas bebidas à mesma. Entrámos. Estava a dar música brasileira. Estranhei mas aguardei. Meteram Macarena e outras espanholadas. Nesta altura optámos por ignorar a música conversando, não interessa sobre o quê. Qualquer coisa que distraísse a atenção do registo musical servia... Lá mais para meio da noite, e depois de umas quantas bebidas metem Doors, depois Xutos. A música manteve-se na mesma onda, felizmente, durante uma boa horita. Era o regresso às raízes que tão bom nome deram ao estabelecimento.
Deixem-me fazer um parêntesis para informar que gosto de saber que quando adquiro um bem, sei exactamente em que é que ele consiste, e que corresponde àquilo que pretendo. Quando vou ao Cunha quero comer francesinhas; quando compro O Jogo não busco reportagens do Jet-set mas sim informação desportiva. Regressemos à discoteca.
I will survive de Gloria Gaynor dá o mote para mais uma fuga para o bar. Uma cerveja custa 3€ ou uma senha de 10€. Não sei explicar mas parecia-me mais correcto pagar do bolso a entregar a senha que até já estava paga. Quem pode discutir com esta lógica? Seguem-se YMCA e In the Navy e, para júbilo dos presentes, Dragostea Din Tei. Naturalmente, que a senha que tinha no bolso não demorou a encontrar o seu destino. Não sei explicar, mas o álcool (ou álcaro) funciona muito bem nestes momentos. Esgotado o orçamento e a paciência, dei a noite por terminada.
Chego a casa. O sofá parece-me mais convidativo que a cama. Repouso a cabeça no travesseiro e ligo a televisão. Entre televendas e Euronews optei pela segunda. A contagem já ía nos 100 mil mortos. Olho em redor para apreciar o conforto que tenho como certo. Fecho os olhos. Tamanha injustiça no mundo... 20€ é mesmo caro demais.

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