Bem, tenho a impressão que compras na véspera de Natal não são muito pacíficas. Eu já lá estive e chegaram a cair munições terra-ar (e sim, terra---->ar) aí a uns bons 2 metros de mim. Perigoso. Houve até, (vi eu, com estes ouvidos) quem pisasse minas anti-pessoais e ficasse para ali a gemer, qual pai natal atropelado enquanto mudava um dos skis do trenó, ou entalado numa pequena chaminé de cinzeiro. Pois é. Terrível. Terrível.
Há ainda outra coisa. A questão dos artigos únicos. Chegados a uma loja e escolhida aquela prenda especial, que tanto queríamos comprar, há que ter a certeza que não é artigo único. É que se for temos de tomar medidas extra para garantir a sua posse.
Uma delas é agarrar com toda a força o artigo, e depois de bem sentados em cima dele, gritar com os dois pulmões (isto para quem os tiver): "É meu, é meu... não há na merda do mundo, caralho de homem mais forte que me retire a merda da posse deste objecto." (podem acrescentar algumas asneiras, torna tudo mais viril).
A outra é acagaçar-se e perguntar delicadamente se alguém quer comprar aquele artigo e em caso de resposta negativa, pacificamente dirigir se à caixa mais próxima.
A segunda não sei se resulta, a primeira sei que sim. Se alguém visitou a Fnac do Norteshopping por alturas da vespera de Natal, pode ver me em cima de uma empregada a reclamar o que era meu. Vejam lá que até tive de puxar aquele artigo único pelas pernas, tal era a indecisão da moça. Mas valeu a pena. Enfeita agora o cimo da minha árvore de Natal e nas horas vagas também cozinha. Faz outras coisas e tira cafés também. Digo-vos: artigo único esta empregada.
Pois é. Relativamente a esta coisa do aumento consumo e decréscimo do crédito ao mesmo, devo dizer que tenho uma teoria.
Ora vamos lá ver. Em tempos de vacas gordas e isto não tem nada a ver com casa de alterne de segunda, o zé-povo, mais afoito e curto de moeda, recorre ao crédito ao consumo. Perante um cenário de expansão económica, decide comprar hoje aquilo que compraria depois, mediante o pagamento de uma simbólica taxa de juro. Fá-lo (humm!!) porque tem a consciência que poderá pagar mais tarde com os rendimentos futuros.
Enquanto isto, o Zé-povo (agora com maiúscula), mais avantajado, gasta aquilo que tem, e por mera simpatia (ou para incobrir rendimentos) pode recorrer também ao crédito. Como estamos em expansão, títulos da bolsa, fundos das mais diversas espécies, e outras coisas mais, remuneram os seus capitais a uma taxa de juro satisfatória e como possuem maior capital e mais informação, este Zé-povo, guardam algum e decide investir.
Chegada a recessão. O zé-povo deixa de comprar a crédito porque para além de ter que fazer face às complicadas contratações de crédito a que antes deu início, vê-se agora perante uma situação em que não sabe e não consegue prever o futuro e decide refrear o ímpeto de consumir a crédito.
Por outro lado o Zé-povo, vendo os seus investimentos mal remunerados, decide passar alguns a liquidez e comprar bens de luxo e outros que mais, muitas vezes com apenas os juros dessas aplicações. Daqui resulta o aumento nas vendas da Porsche, ou Jaguar, Gucci ou Prada e outras, qd estalou a recessão. (A mercedes não, pq é carro de pobre, desculpa Paulo. É muito fixe o teu carro. Dás me boleia?)
Ora isto aumenta o consumo ou pelo menos aguenta os mesmos níveis e faz decrescer o crédito. Os consumidores são outros. E não me digam que os ricos são poucos.
Por isso é que se diz: " Meu filho, poupa enquanto há." (porque quando não há não vale a pena, dahh...)
Já a formiga tinha razão, mas as cigarras agora também vão aumentar 20 centimos, não é?
Pois é. Por isto e por causa de outras coisas mais feias, é que os ricos ficam mais ricos e os pobres nunca lá chegam. Poupemos então. Poupemos, mas com convicção.
Há ainda outra coisa. O zé-povo habituou se a um nível de vida, não digo acima das suas possibilidades, mas se calhar alto demais para um português. Fê-lo porque o Governo, na altura chefiado por António Guterres (agora perdido nas areias de um pântano, só de cueca fio dental), pintou a rosa um país cheio de buracos. Ferro Rodrigues, seu ministro, deu o que tinha e o que não tinha, quer se trabalhasse ou não. Já vi prostitutas, a auferirem rendimento mínimo a comprar um Opel Tigra novo a pronto (a pronto quero dizer a nota batida).
Ou o rendimento não é mínimo ou a profissão dá mesmo dinheiro.
Ainda este fim de semana vi oferecerem cerca de 1500 euros a um gajo que está a receber do fundo de desemprego, e ele disse que preferia estar como está. Devo dizer que o salário era mais do que o normal para a função que iria desempenhar. Sendo que incluia um prémio de produtividade e que poderia atingir uma remuneração maior. O que vai acontecer é que vão acabar por contratar um brasuca, que por pouco mais de metade me faz mesmo e com mais vontade.
Bem mas isso não interessa nada. Estavamos naquilo do poupar...
Há quem diga que isto está muito mal. E está mesmo. Ou se calhar estavamos a viver com base em realidades construidas.
Quem queria um carro, dirigia-se a um stand e comprava, quem queria uma casa, dirigia se a uma imobiliária e comprava, até com bonificações de juros. Tudo isto apenas com um recibo de vencimento.
Em termos históricos, até há bem pouco tempo famílias viviam todas na mesma casa e carros... bem... eu joguei há bola, todas as tardes, numa estrada nacional até aos dez anos e nunca fui atropelado. Actualmente, durava cerca de 30 segundos, inteiro.
Há cerca de 40 50 anos não havia onde comprar nada, e cultivava-se o quintal. Uma sardinha dava para três pessoas e o resto era pão cozido em casa e nabos do nabal.
Hoje, uma costeleta de porco, não chega para um e tudo o resto é comprado. Mas das duas uma. Ou o raio da sardinha era mesmo cara na altura ou o porco ficou subitamente barato. Também pode acontecer que as sardinhas naquele tempo fossem MESMO ENORMES e dessem realmente para três se fartarem, não sei.
Meus caros, um país faz-se com o tempo, (como todas as coisas) e ainda ontem tínhamos uma ditadura. Há que ter calma, trabalhar e poupar. Mas com convicção.
Hoje em dia há quem morra com a dita dura mas isso é por causa daqueles comprimidos azuis.
Umacoisa curiosa: Segundo estudos credíveis (não é invenção) se Portugal tivesse uma produtividade ao nível da Bélgica, para produzir o nosso PIB, bastaria trabalhar até dia 30 de Junho e o resto eram férias.... Bastaria portanto trabalhar metade do ano!!!! ( mas esperem já é assim, não é? Trabalhamos apenas metade do dia).
Há quem diga que é culpa do patronato. Há quem diga que é culpa da força de trabalho. Para mim é culpa dos dois, mas alguém tem que ceder e para que se faça alguma coisa.
Agradeço que alguém me confirme o tamanho das sardinhas nos anos 50, e diga alguma coisa.